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Por que Lula pôde falar e Bolsonaro não?

OPINIÃO- Em tempos de polarização política e embates judiciais, torna-se cada vez mais difícil não perceber a discrepância gritante entre os tratamentos dados a figuras públicas investigadas ou condenadas. A justiça, que possui em sua essência se pautar por critérios técnicos e isonômicos, muitas vezes parece pender conforme alguns ventos — e a prova mais recente dessa distorção está na proibição imposta ao ex-presidente Jair Bolsonaro de conceder entrevistas ou ter qualquer tipo de manifestação pública por meio das redes sociais, inclusive de terceiros.

A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, deixa claro: qualquer tipo de veiculação — seja vídeo, áudio ou transcrição — será considerada tentativa de burlar a medida cautelar. Um silêncio imposto à força. De outro lado, um contraste que salta aos olhos: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (no período também “ex”), mesmo preso em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de 2019, concedeu ao menos 22 entrevistas, em diversos formatos, para veículos nacionais e internacionais. Voz ativa, espaço garantido — e reverberado.

Lula, à época, foi considerado preso político por diversas entidades e personalidades. E mesmo dentro da cela, ocupou pautas, moldou narrativas, alimentou debates. O Instituto Lula, inclusive, mantém até hoje um dossiê completo das entrevistas, exaltando as falas e o posicionamento de quem, mesmo encarcerado, pôde continuar influenciando a opinião pública.

Já Bolsonaro, sem sequer estar preso, encontra-se impedido até de ser citado por aliados em redes sociais, sob pena de descumprimento judicial. A restrição, embora baseada em investigações sobre tentativa de golpe e ataques ao Estado Democrático de Direito, gera o incômodo questionamento: por que Lula pôde falar — e Bolsonaro não?

Não se trata aqui de defender ou condenar qualquer um dos dois ex-presidentes, mas de evidenciar o duplo padrão. Lula foi acusado e condenado no maior esquema de corrupção já revelado no país, com repercussão mundial e impacto direto na economia e na política nacional. Bolsonaro é acusado de tentar desestabilizar a democracia. Ambos, figuras públicas, homens poderosos, protagonistas do nosso tempo. De comum entre eles? A nacionalidade — e o fato de ainda despertarem paixões e ódios intensos.

Mas a Justiça não pode se guiar por paixões. Precisa ser cega — para que não seja injusta. Quando ela cala um e permite a voz do outro, não promove equilíbrio; muito pelo contrário.

A democracia é feita de diálogo, mesmo — e principalmente — com os que pensam diferente. Impedir que se fale é impedir que se ouça. E, neste ponto, a discrepância é barulhenta. O silêncio imposto a um soa como ruído para todos.

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Wemilly Moraes

Escritor e colunista

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