A investigação identifica o que os promotores classificam como “convergência criminal”, quando organizações diferentes utilizam o mesmo ecossistema financeiro clandestino
O Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal deflagraram nesta quinta-feira (28), a segunda fase da Operação Carbono Oculto, que investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis. As investigações apontam que o esquema criminoso continuou operando mesmo após a primeira fase da operação, realizada em agosto de 2025.
O Esquema de lavagem e sonegação no setor de combustíveis
De acordo com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), empresários, operadores logísticos e laranjas mantiveram atividades de lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis e sonegação fiscal utilizando fintechs e novas empresas para ocultar patrimônio e dificultar o rastreamento financeiro.
Os principais investigados são os empresários Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, apontados como líderes do esquema. Ambos estão foragidos desde agosto do ano passado, quando foram alvos simultaneamente da Operação Tank, da Polícia Federal.
Conexão com o PCC
Segundo o MP, o PCC aparece como beneficiário indireto do esquema, compartilhando a mesma estrutura financeira ilegal usada para movimentação e ocultação de recursos. Além disso, a investigação identifica o que os promotores classificam como “convergência criminal”, quando organizações diferentes utilizam o mesmo ecossistema financeiro clandestino. Batizada de “Fluxo Oculto”, a ofensiva cumpre 59 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
As apurações revelaram que o grupo utilizava fintechs para concentrar movimentações financeiras de dezenas de postos de combustíveis em contas únicas, chamadas de “contas-bolsão”. Nesse sentido, a individualização dos valores acontecia apenas nos sistemas internos das plataformas, mecanismo que dificultava a fiscalização do Banco Central e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Leia mais: Kassio pede manifestação da PGR sobre revisão criminal de Bolsonaro
Movimentações suspeitas
Relatórios de inteligência financeira identificaram movimentações suspeitas que chegam a R$ 3,86 bilhões. Entre as instituições citadas estão BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group. Apenas a Smart Solutions movimentou mais de R$ 1,2 bilhão, parte significativa destinada à GGX Global, holding ligada ao grupo criminoso.
Outra frente da operação investiga a chamada “máfia do nafta”, esquema que desviava solventes petroquímicos importados — com tributação mais baixa — para adulteração de gasolina. Segundo o MP, empresas de fachada emitiam notas fiscais falsas simulando venda de nafta para indústrias químicas inexistentes. Portanto, as distribuidoras recebiam o produto diretamente e o misturavam à gasolina comum antes de ele chegar aos postos.
A investigação aponta que mais de 135 milhões de litros de nafta foram desviados em pouco mais de dois anos. Somente a empresa Petrodansk teria emitido mais de 10 mil notas fiscais fraudulentas, movimentando R$ 1,49 bilhão. Nesse sentido, o prejuízo estimado com a sonegação fiscal supera R$ 200 milhões.
Blindagem patrimonial
Os investigadores também identificaram o uso de fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) como etapa final da lavagem de dinheiro. Segundo o MP, os fundos eram utilizados para dar aparência legal às operações fraudulentas por meio de transações fictícias sem lógica financeira real.
A operação ainda apura conexões diretas entre integrantes do esquema e pessoas investigadas por vínculos com o PCC. Entre os nomes citados está Ricardo Romano, apontado como elo da facção dentro da estrutura financeira investigada.
Delações rejeitadas pelo Ministério Público
Por fim, os investigados tentaram negociar acordos de delação premiada com o Ministério Público, mas as propostas foram rejeitadas. De acordo com os promotores, houve omissão de informações consideradas essenciais, como detalhes sobre lavagem de dinheiro, corrupção policial e ligações com o PCC.