Os dados do IBGE indicam que o avanço é mais forte no Norte e Centro-Oeste
Os evangélicos já são o principal grupo religioso em 244 municípios brasileiros, segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Dados da pesquisa
De acordo com a pesquisa, desse total, 58 cidades registram maioria absoluta, com mais de 50% da população declarando seguir essa vertente do cristianismo, evidenciando um avanço consistente e territorialmente relevante no país.
No cenário nacional, o crescimento também se reflete nos números gerais: são 47,4 milhões de evangélicos, o equivalente a 26,9% da população brasileira. A expansão confirma a tendência observada nas últimas décadas e consolida o grupo como o segmento religioso que mais cresce no Brasil.
Números na esfera municipal
Entre os municípios com maior presença evangélica estão Santa Maria de Jetibá, onde 73% dos moradores se declaram evangélicos, e Alto Caparaó, com 63%. O destaque nacional é Arroio do Padre (RS), que concentra cerca de 88% da população ligada a igrejas evangélicas.
Evolução Histórica
A evolução histórica reforça esse avanço. Em 1980, os evangélicos representavam cerca de 6% da população brasileira. Em 2010, esse número subiu para 21,7%. Já em 2022, chegou a 26,9%, mantendo a trajetória de crescimento, ainda que em ritmo mais moderado nos últimos anos. Em paralelo, a proporção de católicos segue em queda, embora ainda seja majoritária no país.
Os dados mostram que o crescimento evangélico não ocorre de forma uniforme. A maior concentração está na região Norte, com 36,8% da população. Em seguida aparecem Centro-Oeste (31,4%) e Sudeste (28%). Já as regiões Sul (23,7%) e Nordeste (22,5%) apresentam percentuais menores, mas também registram expansão.
Perfil da população evangélica
O Censo também detalha o perfil dos fiéis. As mulheres são maioria entre os evangélicos, representando 55,4% do total. Pessoas pardas correspondem a 49%, indicando forte presença desse grupo racial. Outro dado relevante é o crescimento entre populações indígenas, onde os evangélicos já somam 32,2%.
O avanço evangélico tem forte presença em cidades de pequeno e médio porte, indicando um processo de interiorização. Estados como Espírito Santo e Santa Catarina concentram diversos municípios com altos percentuais da população evangélica.
Apesar disso, o Brasil ainda mantém maioria católica em cerca de 4,8 mil municípios, o que indica que a transformação do cenário religioso ocorre de forma gradual, mas contínua.
Crescimento já é fato consolidado, afirma pastor e pesquisador
O pastor Rodolfo Capler, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e líder da Igreja Batista Alternativa em Piracicaba (SP), avalia que o avanço evangélico no Brasil já ultrapassou a fase de surpresa e se tornou um fenômeno consolidado.
“Vejo o crescimento evangélico no Brasil como um fato consolidado. O IBGE apenas quantifica algo que já é visível na cultura e na sociedade. Mas o ponto central não é o crescimento em si, e sim o que ele está produzindo. Crescer não é necessariamente amadurecer”, afirma.
Segundo ele, o aumento desse grupo amplia diretamente sua capacidade de influência em diferentes áreas da sociedade.
“Esse crescimento amplia o poder de influência, especialmente na política e no campo social. Isso pode gerar impactos positivos, como maior senso de responsabilidade e atuação social relevante, mas também pode levar à instrumentalização da fé, ao uso religioso como identidade de grupo e à polarização”, diz.
Fé e meio ambiente
Capler também chama atenção para reflexos que ainda são pouco debatidos, como a relação entre fé e meio ambiente.
“No campo ambiental, ainda há pouca reflexão, mas é decisivo entender se a visão predominante será de cuidado com a criação ou de exploração sem responsabilidade”, pontua.
Na avaliação do pastor, o avanço numérico não deve ser confundido com aprofundamento espiritual.
“Crescimento em números não significa crescimento em Espírito porque quantidade não garante profundidade. É possível haver expansão estatística e, ao mesmo tempo, superficialidade espiritual”, ressalta.
Para Capler, o verdadeiro desafio está além das estatísticas e envolve transformação pessoal e coletiva.
“O verdadeiro crescimento espiritual exige transformação de vida, não apenas aumento de público”, conclui.